há dias assim...
... tudo nos maça, tudo nos cansa, o cinzento acompanha-nos passo a passo.
Depois, fazemos um esforço para nos lembrarmos dos dias de sol, dos risos sinceros, do cheiro do mar, de histórias de amor... e a coisa lá se leva.
Neste caminhar de horas recordei uma história bonita contada por uma avó.
A minha avó Teresa.
Contava-me ela, nas longas tardes ensolaradas que na minha opinião só existem no Alentejo, que uma rapariguinha, a Rita do Lino, ficou esperando pelo seu grande amor de juventude, toda a sua vida. Ela até casou com outro homem, teve filhos e respeitou-o sempre.
Mas o sorriso brilhante que lhe conheceram quando namorara com aquele outro rapaz vindo de fora, contratado num rancho para a ceifa, esse sorriso nunca mais foi visto.
Contava a minha avó Teresa que eles bailavam muito bem, pareciam um só, quando ao som das concertinas no terreiro frente à igreja do Espírito Santo se faziam grandes bailes com toda a mocidade daquela altura. Dizia a minha avó sorrindo que eles até se beijavam só com o olhar ( confesso que na minha inocência de adolescente tentava imaginar como seriam aqueles olhares...)
No final do Verão, após as ceifas, ele partiu.
As amigas viram-na chorar, emagrecer, ficar sem brilho.... Até desconfiaram que ela se lhe tinha entregue como mulher. Mas eram só desconfianças.
Todos lhe davam conselhos para que o esquecesse. A Rita do Lino respondia com silêncio. O silêncio de quem sofre as saudades de metade de si...
O pai arranjou-lhe o casamento com outro. Sim, porque naquele tempo rapariga que não casasse era um contrapeso à mesa das famílias.
O namoro durou alguns Invernos e outros tantos Verões, ela sempre arranjava forma de adiar.
Diz a minha avó que a viam no caminho da fonte, retendo o passo e olhando o infinito da estrada que tinha levado o seu amado. (...) Até mangavam com ela porque torna não volta desequilibrava o cântaro e entornava parte da água no rosto. Creio que não se importaria muito, pois assim sempre disfarçava as lágrimas,...
... As longas tardes de férias de Verão eram passadas assim, entre histórias lentas e suavemente contadas, procurando não acordar os seres que aquele hora dormitavam vencidas pelo braseiro do sol...
... mas, a minha juventude não se vencia com uma história que acabava assim a caminho da fonte. E a pergunta surgia
Então avó e depois?
...ela sorria e continuava...
Ela casou. Eu ainda era cachopa mas fui ao casamento, mas não me lembro de quase nada , só das amêndoas que eram muito grandes. Teve duas filhas, o marido morreu cedo, partiu a ''espinha'' quando limpava oliveiras para os Palmeiro de Estremoz.
Neste dia em que nada me apetece, em que o cinzento me penetra lembrei esta história, pois década depois do Maltês ter deixado a sua amada houve finalmente um final feliz...
... Contou-me o meu tio que Rita do Lino , já com mais de oitenta anos, voltou a casar com um namoro da juventude que encontrou no Lar de Dia em Sousel.
Pois então, a D.Rita vivia lá com uma das filhas e frequentava, por força das suas limitações fisicas. o lar de dia.
Entre rugas e conversas desfiando as juventudes de cada um, reencontrou um rosto que lhe fazia lembrar de novo o seu Maltês, num primeiro vislumbre pensou que seria impossível. Aproximando-se suavemente, com descrição e respeitosamente percebeu que se tinham reencontrado.
Perco-me nos meus pensamentos, imaginando o que terão sentido os dois, que terá acontecido, que terão dito...
Histórias lindas, simples, quase kármicas...
... e o sol brilha agora dentro de mim fazendo frente à chuva que teima em cair ....
Espaço como as velhinhas sebentas do tempo de liceu. Onde tudo escrevia, riscava, garatujava, desenhava... Sebentas que relidas no hoje, mostram a adolescente que fomos, os sonhos que transportámos, os medos que vivemos, os desânimos as euforias. Falaremos de quotidianos, de sonhos. utopias e partilharemos neste solitário espaço, textos cheios de pó escritos em tempos idos, imagens que nos tocam, músicas
Acerca de mim
- isa
- Mulher... mãe.... avó Dona de 15 cães, 6 gatos e muitos sonhos! No momento vive alguns dilemas, mesmo encruzilhada, perguntando-se que caminho percorreu até aqui, que raio de futuro construiu, que se vê agora sozinha, sem trocar ideias com ninguém, escutando os noticiários na ânsia de ficar informada e assim se ligar com o real que parece acontecer somente fora de si

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