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Mulher... mãe.... avó Dona de 15 cães, 6 gatos e muitos sonhos! No momento vive alguns dilemas, mesmo encruzilhada, perguntando-se que caminho percorreu até aqui, que raio de futuro construiu, que se vê agora sozinha, sem trocar ideias com ninguém, escutando os noticiários na ânsia de ficar informada e assim se ligar com o real que parece acontecer somente fora de si

sexta-feira, 8 de abril de 2011

mangericos

Arrumava os papéis do escritório. Era a arrumação sempre necessário no Verão, rasgar documentos, seleccionar outros e arrumá-los em pastas... de dentro de um caderno usado para as programações das aulas, saltaram um conjunto de folhas que tinha escrito como se fora uma conversa com alguém....

« Entre o Stº António e o S. João há sempre festas nas escolas. Esta noite fui convidada para ir à escolinha de um aldeia, uma escola que vai fechar... não podia recusar.
Quando cheguei à aldeia, parecia só existir vida naquele espaço. No negrume de uma noite sem lua, a luz que provinha do edifício escolar, de tão intensa, parecia querer substituir o sol que há muito se tinha escondido.
Ao entrar quase me senti sufocar, o ar estava irrespirável, muito fumo de cigarros e dos fogareiros onde se assavam sardinhas, pimentos e carnes.
Na mistura de cheiros sentia-se o aroma de transpiração em coktail com desodorizantes intensos. A pessoas vestiam roupas domingueiras, compradas certamente no mercado semanal. As mulheres envergavam saias, blusas, folhos, tules, chinelas altas, lantejoulas. Os homens calças vincadas, camisas de quadrados, botões abertos até meio do peito mostrando os pêlos e os grossos fios de ouro, debaixo dos sovacos largas manchas de transpiração. 
Tudo tão belo e tão feio!
No meio do salão as mesinhas da escola transformadas em mesas de refeição - toalhas de papel e vasos de mangericos, onde um cravo de papel com a sua quadra agregada, davam o toque que nos recordava que estávamos nos Santos Populares.
Os mangericos ofereciam o melhor perfume da noite, cheiram tão bem os mangericos! O seu perfume e a cor são como códigos, o verde lembra a frescura do Inverno e o aroma anuncia-nos o Verão.
Ai quantos corações não estiveram já suspensos da quadra que cada cravo e mangerico lhes prometia... confesso que também me apressei a ler a que me saiu :
'' S. João, S. Joaninho
Dá-me muita alegria
um bom namoradinho
e boa comidinha.'''

...queria tanto tê-la lido com o meu amado...
Porque é bom partilhar com quem se ama.
Não imaginam quem me rodeava o esforço que fiz por sorrir, para não me tornar uma ilha de solidão rodeada de alegria e gente....
Olhando em meu redor é certo que vi outras ilhas, outros sinais de sorrisos tristes, pessoas sem pontes que as liguem ao afecto de outros.... ilhas de um só habitante.
Devíamos ser educados para vivermos sós.
Ou então para sermos poligâmicos. Era tudo bem mais simples. Deixava de existir o ciúme, a posse...  Há de facto muita culpa na educação que nos dão, naquilo que nos prometem nos contos de fadas, nas fábulas, os príncipes, os sapos, os lobos maus, os finais felizes...
De facto é tudo verdade.
Amamos feios ( os sapos) a quem achamos lindos, aceitamos brincar com o lobo-mau, vimos estrelas ao meio-dia, pássaros verdes em árvores azuis... de facto há magia e poesia quando amamos.
Só se esquecem de nos ensinar que não passam de fugazes momentos. Tudo é efémero. As dores de parto, as dores de dentes, as paixões, os queixumes, as alegrias... a vida não é mais do que uma cadeia, uma corrente em que cada elo tem uma alegria, uma tristeza. uma dor, um prazer, um orgasmo, uma infidelidade, uma esperança, uma estrela...
 Depois os elos vão-se repetindo, alguns com ritmos que prevemos, outros quase fruto do acaso.
Gostava de acreditar que podemos alterar as sequências, mas a realidade desmente essa capacidade de alterar a cadeia da vida...
As pessoas que crêem, que têm fé, são mais felizes.Remetem para uma entidade exterior o bom e o mau que lhes acontece. aqueles, que como eu não crêem no destino, sentem-se mais culpabilizados pelo rumo que dão aos seus actos, pelas palavras ditas e pelas não-ditas... que muitas vezes determinam o rumo dos acontecimentos...
Voltemos à festa. É sobre ela que quero escrever e não sobre dúvidas existenciais.
Foi a música que uniu as pessoas, ou antes as pessoas agruparam-se de acordo com o que se tocava.
Principiou com folclore. Um grupo de alunos dançando e cantando, nos seus rostos brilhava alegria e timidez. No rosto dos pais e avós os sorrisos orgulhosos de terem descendentes tão dotados.
Seguiu-se uma banda de jovens, todos vestidos de negro, que cantaram velhinhas baladas do Zeca, do Adriano. os intelectuais, os pseudo-intelectuais e os que gostam de acompanhar com doutores animaram-se. Fui uma delas!
O povão do folclore saiu de mansinho para o pé das sardinhas e dos petiscos....
É verdade que o vocalista nunca entrou no tom, acho que só apanhava a linha melódica a meio da cantiga, mas ninguém parecia importar-se com isso. A esta hora da noite, depois de uns copos de cerveja e vinho, o que menos importa é a afinação.
Importante era mesmo cantar, desafinar, bater palmas, bater com as colheres nas mesas... o álcool faz destas coisas.... Deturpa o ouvido, altera as palavras, aumenta a sensibilidade na pele e o erotismo até aí quase ausente daquele espaço, surgiu. Perceberam-se certas carícias entre namorados, ditos brejeiros dos mais velhos aos decotes das damas presentes, até o Presidente da Junta pespegou um beijo na boca da senhora sua esposa.
Uma delicia... teria gostado tanto quanto eu!
Era hora da festa terminar para mim. Também algumas crianças já cediam ao cansaço e aos deuses dos sonhos, dormitando em cima das cadeiras, ou encostadas aos ombros de avós.
As mesas começavam a ser limpas e iam retomando o seu lugar nas salas de aula.


Mesas cuja função original e primordial era o serem suporte à aprendizagem dessa coisa bela e mágica que é o falar das letras, sejam escritas por nós ou por outros.
Fazes-me falta amado sem rosto, sem corpo, sem ser.... queria acabar a noite mergulhada em ti.
 

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