Caminhando pela rua vou pensando...
Não posso ir ao café... hoje não!
Tenho mil e um afazeres... pequenas coisas que ficaram esquecidas ao longo do dia de trabalho : na cozinha esperam-me umas favas serôdias para descascar... roupa ressequida adormecida pelo sol da tarde... um jantar a ser pensado... Depois... rever os procedimentos para as provas de aferição... mais a acção ao final da tarde... e ainda encaixar ir ao velório do pai de uma colega....
Hoje não posso ir ao café....
Continuo caminhando, a pasta dos livros pesa-me, as calças picam as pernas por causa do calor... os óculos escorregam do nariz por causa do suor...
Pronto! Está decidido hoje não vou ao café!
Meio adormecida caminho, quase não ouvia o chamamento : '' senhora, óh senhora... '' . Ah, é comigo: É o Xico das Cabras... atravessa a rua vem direito a mim de mão estendida para o cumprimento.
Páro, ponho a pasta no chão e cumprimento-o com um afago no ombro: '' então Xico como vai a saúde? '' Mal, muito mal... o doutor diz que me vai cortar as pernas... '' As pernas??? .... Sim. !!! '' Porquê as pernas? '' Para eu não correr atrás do bode. Só quer fazer mal às cabritinhas... Bode velho....
Sorri... sorri com gosto.
O Xico tem 50 e tal anos, deficiência mental e trabalha como pastor. Tem um alto enorme na cabeça que se vê quando tira a boina para nos cumprimentar mas, invarialvelmente, queixa-se de outros males. Uns reais, outros ( a maioria) imaginários...
Continuei... ''´´Óh Xico, logo as duas pernas??? '' Pois é. Depois já não posso casar....Sabe que uma rapariga do Catujal gosta de mim? Gosta pois...!
... Lá continuei a consolar o Xico...
Hoje não vou ao café.
Mas amanhã quero ir... acho que se está a organizar uma tertúlia para discutir a energia nuclear... não quero perder....


Sem comentários:
Enviar um comentário