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Mulher... mãe.... avó Dona de 15 cães, 6 gatos e muitos sonhos! No momento vive alguns dilemas, mesmo encruzilhada, perguntando-se que caminho percorreu até aqui, que raio de futuro construiu, que se vê agora sozinha, sem trocar ideias com ninguém, escutando os noticiários na ânsia de ficar informada e assim se ligar com o real que parece acontecer somente fora de si

quarta-feira, 6 de abril de 2011

'' - Flores? Disseste flores? Recebi inúmeras margaridas ainda há menos de uma hora!  Juntei-as às que já perfumavam a minha vida, embora te confesse que algumas estavam a ficar murchas..''. - respondeu sorrindo à pergunta de Pedro e continuou :
'' - Agradeço as rosas é sempre agradável receber flores e uma atitude muito amável da tua parte. Contudo Pedro, e porque há muito me revolto contra a hipocrisia e dissimulação de atitudes e sentimentos, deixa que te diga, que só ficarei com este ramo caso ele represente amizade. De outra forma terei do recusar.!
Pedro ficou durante segundos ficou sem palavras. Mas esboçou uma resposta : ?
Claro, claro... é só para perfumar a nossa amizade.''

Sabia que não era. Continuando a olhar o ramo e os olhos do colega respondeu :
- '' Então aceito, mas não as vou levar para casa, vou oferecê-las a Sofia para que alegrem a sala de estar do Lar de Idosos. Não levas a mal pois não? Bom, então conta-me lá do projecto e esses teus planos para o novo ano lectivo.''
O senhor Quimera, que vagueava de mesa em mesa limpando os já mui polidos tampos das mesas, sorriu. Eles não se tinham apercebido da sua presença, porque anos de trabalho no café tinham-lhe desenvolvido uma capacidade felina de se aproximar e afastar dos clientes, sem que a sua presença fosse notada.
Pedro começou a falar, enquanto ela acedendo com a cabeça ia em simultâneo espreitando o visor do telemóvel, pois aguardava a doce escrita de Carlos.
A presença e o discurso de Pedro quase a incomodava, respondeu-lhe mesmo com alguma impaciência e percebeu que precisava de estar sozinha.
As rosas, aquele encontro a despropósito e um certo ciúme que sentia no ar, fizeram com que abruptamente interrompesse o colega e dissesse:
''- Pedro, Pedro meu amigo lamento não poder ficar mais tempo mas tenho mesmo de ir para casa. ''

E quase fugindo, despediu-se de Quimera e do grupo de debates, como adorava aqueles homens !!!
Gente com o trabalho e a dureza do passado traçada em cada ruga da pele, as mãos grossas , crestadas por geadas e sol e contudo bastava olhá-las para se perceber quão segurizantes eram.
Saiu tão rapidamente que esqueceu as flores em cima da cadeira.
Caminhou em passo apressado até ao Parque.
Chegada lá endireitou as costas, olhou o céu e a copa das árvores e procurou o velho carvalho . Acariciava sempre o seu grosso e sólido tronco, a rugosidade transmitia-lhe paz e lembrava-a dos inúmeros invernos que ele já tinha vencido.
Sentou-se num banco , semicerrou os olhos e pensou nos acontecimentos do último fim de semana. Ainda sentia em todo o seu corpo as carícias de Carlos, os beijos de Carlos, os sussurros de Carlos, o olhar húmido de Carlos, o sabor a sal da pele de Carlos, a respiração ofegante de Carlos, o aroma de todas as partes do corpo de Carlos.
Sorriu, quase deu uma pequena gargalhada, de facto doía-lhe o corpo, as ancas, da noite de amor....
E sorriu....
Carlos.... meu rio, meu sol, meu luar, meu jardim de margaridas, minha poesia em jeito de gente....

Como ia sofrer longe dele, como ia sentir ciúmes de o saber a partilhar o mesmo céu que Estrela.
Estrela, uma palavra de que tanto gostava e que começava a detestar.
Notava-se que Estrela era uma mulher ardente, sabia como pôr louco um homem, como o dominar com as artes do erotismo, com a sedução de um corpo roliço sem ponta de celulite, de seios grandes, olhar profundo que parecia sempre  anunciar e prometer infinito prazer carnal.

Não tinha nenhum desses atributos. Escondia o corpo desajeitado,  tinha um peito banal, usava o cabelo curto, não se maquilhava, não usava roupas sensuais.....O seu ex. companheiro dizia-lhe que tinha seios de adolescente e pele de bebé, nunca conseguiu perceber se era um elogio ou uma crítica.

Não... não... gritou em silêncio.
Não!
Carlos não gosta do meu embrulho, gosta de mim.
O embrulho é efémero, não só corroido pelo relógio do tempo, como se pode destruir com um acidente ou doença.... O que contam são os sentimentos, os valores, as atitudes partilhados, a cumplicidade, o prazer de conversarem de tudo e de nada, o conseguirem rir um com o outro e para o outro... e ambos saberem como adoçar e serenar as incertezas e os medos do outro.
Mas, como quase todas as mulheres que já tinham sofrido por amor, sentia sempre uma grande insegurança e perdia-se em medos que racionalmente resolvia, mas que emocionalmente a dominavam.
Estas mulheres fogem do amor. É frequente que numa segunda relação prefiram a segurança de um companheiro banal, sem grande ardor envolvido, sem paixões enebriantes, um homem que não tenham de disputar com outras mulheres e por isso não lhes mobilize muito libido ou emoções.
São mulheres que passam a negar os contos de fada com fim feliz e assumam que o importante é o sofá partilhado, a certeza dos horários, a segurança das relações sexuais rotineiras com dia e hora marcados.

. Mulheres que não têm companheiro, mas têm companhia. 

Algumas tornam-se um pouco tristes, uma tristeza tornada resignação, a qual é envolvida num pouco de inveja para com as outras mulheres em cujo olhar adivinham as inquietantes noites de amor.
A vibração do telemóvel despertou-a da torrente de pensamento que a percorria . Era uma mensagem de Carlos : '' Pela janela do comboio olho o céu, em cada tonalidade de azul revejo-te, meu poema.''
Sussurrou '' meu capitão'' . Entre as muitas cumplicidades existia o livro de poemas de amor de Neruda, que tinha sido partilhado a dois....



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