Terminou mais um dia de trabalho. Em passo lento de fim de jornada dirigi-me ao Café. Lá dentro numa mesa três velhotes, de vestes escuras, dois deles encostados à bengala falavam de futebol... '' Nã senhor... nã há direito de quebrarem as cadeiras, são do povo... a polícia mesmo ao pé... e uns rapazolas aos pontapés aquilo que é do povo....'', '' ... é assim.... agora é assim...
Mas olhe ( e soltou uma gargalhada...) nós não éramos muito melhores, só não aparecíamos na televisão... quando era moço veio aí jogar o Eléctrico Clube de Coimbra... foram os ricos que os trouxeram... o Manel Lemos, os Montenegros, o João Medeiros.. lembram-se???... Perdemos.!
À noite sabíamos que eles estavam a jantar no Clube dos ricos ... onde só podia entrar quem eles deixassem ( e... tosse engasgado com uma gargalhada)... Nessa altura as ruas eram mais escuras, agora não são muito mais claras que a Eléctrica para poupar dinheiro põe lâmpadas de mortos... À noite, esperámos que eles saissem e fiscámo-los na Travessa do Forno, aquela ali ao pé da Fonte Nova... pusemos arames estendidos de um lado ao outro... eles vinham bem bebidos... Foi vê-los cair e deitar-lhe por cima mijo de cavalo, ou burro para o caso tanto faz...
Riram em coro os três...
Pois foi, pois foi... pois até o Hilário da Havaneza e o Eugénio do Vale foram chamados ao Posto da Guarda, ainda ele era ali na Avenida da Estação... Mas foram rijos, nunca quebraram e eles nunca souberam quem fez aquilo aos '' mijados'' ... era assim que a gente lhes passou a chamar.
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Sorrindo, admirei o ar de crianças marotas que lhes vi no rosto...
De repente, e distraída que estava, assustei-me com uma coisa peluda a roçar-me as pernas... era o gato Fanecas. Tinha vindo de saias e assustei-me com o cumprimento do meu amigo de quatro patas.. .. Até o dono do café, habitualmente tão sisudo, se riu do meu susto... nessa altura aproveitou para me mostrar um livro dizendo-me que tinha sido um amigo, o Carlos, que tinha pedido para me entregar...
Já mais repousada, aliviada do trabalho do dia com a conversa dos velhotes.... rumei a casa... mas antes, olhei o sol que ia adormecer lá para os lados de Lisboa e pedi-lhe para levar um raiozinho de sol ao meu amigo lindo que mora pertinho do Monte da Lua
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