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Mulher... mãe.... avó Dona de 15 cães, 6 gatos e muitos sonhos! No momento vive alguns dilemas, mesmo encruzilhada, perguntando-se que caminho percorreu até aqui, que raio de futuro construiu, que se vê agora sozinha, sem trocar ideias com ninguém, escutando os noticiários na ânsia de ficar informada e assim se ligar com o real que parece acontecer somente fora de si

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sentia-se pintada de pó de estrelas... Brilhava por dentro de tão serenamente feliz que estava.
 O encontro com Afonso tinha sido afectuoso, calmo e reconfortante depois da ausência de meses acompanhada de silêncios.
Saira de casa em direcção ao Centro Cultural onde combinaram encontrar-se com algum receio de como o mesmo iria decorrer . 
 Mas Leonor é uma   mulher frontal, não fugindo aos desafios e preferindo encarar as situações ao invés de fugir.
 É certo que tentava esconder o seu lado mais sensível, a sua leitura poética do quotidiano, o seu contínuo deslumbramento por pequeninas coisas.... um voo de pássaro, um pôr de sol, a primeira papoila, um poema, uma melodia que a emocionava, uma imagem, uma pintura.  Só os seus eleitos conheciam esse seu lado sensível,   esse seu eu.
Quando o fazia era como se desnudasse a alma, ficava insegura e rapidamente brincava e fechava de novo esse seu mundo ao mundo.
Afonso era seu amigo desde o tempo em que era chamada de NôNô, ou seja desde o liceu. Tinham feitos inúmeras coisas juntas, porque cedo descobriram que partilhavam os mesmos ideais democráticos. Cravos, cravo era a flor que poderia sintetizar o caminho partilhado , primeiro nas associações académicas, no movimento sindical e mais tarde nas eleições autárquicas.
Leonor tinha tido alguns namorados, mas cedo decidira viver sozinha. Percebia, por vezes que algumas pessoas se punham a adivinhar sobre a sua vida, até sobre a sua orientação sexual. Gostava de manter, e até alimentava, essas dúvidas raramente falando da sua família.
Com Afonso podia ser totalmente, podia falar, rir, emocionar-se sem se esconder por detrás da personagem que construira para se defender.

Sentada no átrio do Centro cultural, olhando distraidamente quem passava, saboreando a melodia de uma flauta tocada por uma jovem virtuosa no jardim interior que ligava os diferentes espaços , recordava o último encontro com Afonso.
Tinham andado, com outros amigos, pelos bairros de Lisboa festejando o Santo António. Um deles fazia anos nesse dia e era um pretexto, como outro qualquer, para terem brindado inumeras vezes ao aniversariante e acompanhantes.
No fim da noite com o cheiro do fumo de sardinhas colado ao corpo, as mãos cheirando a cerveja e a mangerico, a lucidez toldada pelo alcool e pela alegria, Afonso pediu-lhe se poderia ficar em casa dela, porque já não tinha transportes públicos a essa hora.
Leonor, não sabia com exactidão o que se tinha passado. Lembra-se vagamente das caricias, dos cheiros, dos corpos em dança de paixão, da doçura que ainda hoje permanecia em si.
E gostara... por isso não sabia se era sonho se utopia realizada.
Quando acordara de manhã ao lado do amigo sentira pudor, alguma vergonha e saltara da cama, vestindo-se rapidamente. Saira de casa deixando um bilhete colado no espelho da casa de banho : '' Está à vontade. Come. Deixa a chave na caixa do correio. ''
Nunca mais se viram.
Trocaram algumas frases na net. Mails nas ocasiões festivas e nada mais.
Envolta nestas divagações assustou-se quando , como um sopro de voo de borboleta, alguém lhe sussurrou '' Olá...'' era Afonso.
.....

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