Era noite, tudo estava adormecido sentada no chão da sala, tentava que a frescura da noite penetrasse no seu corpo na busca de esquecer o calor sufocante dos últimos dias.
Ligava o gravador para ouvir, vezes sem conta, os poemas ditos e gravados especialmente para ela.
Cada palavra, a respiração, a ondulação da entoação, a doçura das frases, libertavam nela ondas de ternura.
Desejava gravar na memória, no cantinho onde guardava as melodias das caixinhas de música, os risos das crianças, a voz pausada dos idosos, o riso dos amigos, o canto dos pássaros, o murmúrio do mar, o som da aragem na copa das árvores, as sinfonias, o som das baladas, era aí, que queria que os poemas ditos por ficassem guardados.
Não se permitia pensar em futuros, nem queria recordar passados, antes viver este presente como ilha de prazer, onde vivia secretamente a felicidade de ter encontrado alguém que a compreendia e que aceitava as suas memórias, os seus passados semelhantes a raízes velhas, estendidas enterradas nas profundezas da terra, mergulhadas no ser complexo que era..
Fechava os olhos e pensava no corpo, no cheiro, na voz , nos gestos de ternura quando faziam amor.
Amava-o tanto.
Se ao menos pudesse chorar, sabia que as lágrimas ajudariam a minimizar a dor . Mas era sempre assim. As suas dores raramente se exteriorizavam em lágrimas. Antes se encolhia, se refugiava no silêncio, as palavras não fluiam, sentia-se como as flores que fecham as pétalas ao anoitecer.
Quando ele lhe disse que se ia embora quis gritar : '' não! não! Já não sei viver sem ti....' Mas as palavras ficaram presas na garganta. Seria incapaz de o chantagiar com choros mansos e manipuladores.
O amor, esse não resistira à distância, à separação, aos caminhos trilhados a só . Ou, nunca fora amor.... antes paixão, fogo, desejo, erotismo....
Enterrava a cabeça nos joelhos, os braços enlaçavam as pernas, todos os seus músculos estavam tensos, rigidos....
Não sabe quanto tempo ficou assim... Foi despertada pelo sinal luminoso do telemóvel, chegara uma mensagem. Não lhe apetecia ir ver o que era. A esta hora da noite certamente que seria algum apelo publicidade. Contudo ergueu-se, precisava beber água, a garganta estava seca do calor . Por hábito pegou no telemóvel... Era uma mensagem dele.
O seu coração disparou numa intensa batida. Parecia uma adolescente apaixonada. Leu '' serei sempre a tua caixinha de música....'' . Sorriu. Nessa altura deixou que as lágrimas aflorassem... a noite, a lua, as estrelas, a frágil brisa, tudo se transfigurou em objectos mágicos que só vê quem ama.... durou segundos. Sabia-o nos braços de outra.


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