Acerca de mim

A minha foto
Mulher... mãe.... avó Dona de 15 cães, 6 gatos e muitos sonhos! No momento vive alguns dilemas, mesmo encruzilhada, perguntando-se que caminho percorreu até aqui, que raio de futuro construiu, que se vê agora sozinha, sem trocar ideias com ninguém, escutando os noticiários na ânsia de ficar informada e assim se ligar com o real que parece acontecer somente fora de si

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Procuro-te
não sei onde te encontrei
agora
só te encontro em  mim

Todo o meu ser tem
o nome teu
respiro por ti´
sonho por ti
caminho para ti

És o meu infinito
o meu eu
a minha razão
a utopia

és liberdade
em abril

segunda-feira, 18 de abril de 2011

café

Curiosamente é essa a imagem que eu tenho... eu explico...
Sinto, que de uma certa forma nos encontramos na esquina de cada palavra, percorremos a mesma rua em cada frase... e que este postigo, não é mais do que o nosso subversivo "café republica".
Quando ao almoço te enviei a sms a dizer onde estava a almoçar, era um pouco dessa imaginação que também estava a actuar. Nesse instante, o centro comercial deixou de ter a nuvem de fumo, com gentes alienadas e passou a ter um cheiro característico de um café de província, a luz do sol a entrar pelo vidro da porta a dar um ar de aguarela acastanhado e um ruído suave e sussurrado emergia , vozes e cadeiras em movimento, num tom idêntico a um confessionário.
 As mesas de madeira, gasta no tampo pelo roçar sensual das pedras de dominó estão meio vazias agora que o calor lá fora afasta os clientes deste espaço. A telefonia, ainda a válvulas, vamos lá nós descobrir como se mantêm ainda em funcionamento, toca baixinho. Longe vão os tempos em que nos espantávamos e rodeávamos o aparelho na esperança de descortinar quem no seu interior se escondia e nos falava. Rádio realejo de uma modernidade que se esgota com a emancipação do transístor.
Não há televisão neste "café republica", as noticias chegam pelos trovadores que ambos assumimos ser. Neste momento, não sei como classificar os resultados das listagens dos professores... ao fim e ao cabo, tudo isto não é mais do que um jogo de roleta, ou um cartão de loto que, não entram neste café. Embora sebosas e viciadas, as cartas da "sueca" mesmo nunca jogadas, ainda são as rainhas......


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Deixa-me dizer-te em primeiro lugar que não te importes de escrever sobre o teu quotidiano. Nós somos uma mantinha de retalhos onde cada pedaço é um dia, uma vivência, um sentimento, um sorriso que guardamos na nossa memória. Sei que desejamos sempre escrever sobre algo profundo, reflectido, analisado, mas entre amigos que se querem bem a partilha das pequenas coisas é que concretiza o que diz um provérbio hindu '' não deixes crescer a erva entre a tua casa e a dos amigos''.
   A partilha das tuas músicas dá-me mote para te dizer que escuto com muita frequência um CD do Coro Lopes Graça '' Marchas, Danças e Canções'', ou para partilhar que gosto do Luís Pastor, ou dos cantores da nova trova cubana e que me emociono a escutar Sílvio Rodriguez e o '' Unicórnio Azul..''..As trivialidades, e sobretudo a forma como as contamos e recontamos são o espelho do que somos, de como interpretamos o mundo...
   Eu não sei o que é poesia, mas sei que a encontro flutuando nas palavras, nos gestos, nos rostos daqueles que me são significativos...e isso acontece todos os dias. É como a luta e o combate por uma sociedade mais justa que têm de ser diários... quotidianos, por vezes carregados de actos quase insignificantes...
   Tocas num aspecto curioso - o de te teres jubilado - ( parabens...) Também tenho andado a pensar bastante se este ano opto por me manter no quadro do 1º ciclo do ensino básico , logo poder aposentar-me com 52 anos, ou se opto pela educação especial, a minha profissão há 28 anos... Não sei que faça...
  Bom... hoje não fui de chinelos para a escola!! Mas.... mas.... num Centro Comercial em Coimbra....entrei na casa de banho dos homens... falando ao telemóvel e levando alguns segundos a perceber porque raio havia homens na ''minha'' casa de banho.... O meu filho, que assistiu à cena, diz que preciso de descansar... Eu acho que não me faz bem participar em reuniões com o Ministério da Educação - hoje de manhã estive em ''formação'' com uns senhores engenheiros e doutores do DGRE sobre o novo modelo de concurso.... Será que arranjo um médico atestando que as reuniões oficiais me provocam demência??? ... Bom... amiguito eu vou brincando, mas que ando muito cansada isso ando

Consegui copiar o unicornio azul... Não sei enviar a música...
Tu és para mim um unicornio.... ... quando não escreves, também pergunto onde andas
um beijito
UNICORNIO AZUL - SILVIO RODRIGUEZ
Mi Unicornio azul ayer se me perdió,
pastando lo dejé y desapareció.
Cualquier información la voy bien a pagar,
las flores que dejó, no me han querido hablar.
Mi Unicornio azul ayer se me perdió,
no sé si se me fue, no sé si se extravió.
Y yo no tengo más que un Unicornio azul.
Si alguien sabe de él, le ruego información,
cien mil o un millón yo pagaré.
Mi Unicornio azul se me ha perdido ayer,
se fue...

Mi Unicornio y yo hicimos amistad,
un poco con amor, un poco con verdad.
Con su cuerno de añil pescaba una canción,
saberla compartir era su vocación.
Mi Unicornio azul ayer se me perdió,
y puede parecer acaso una obsesión,
pero no tengo más que un Unicornio azul
y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel.
Cualquier información la pagaré.
Mi Unicornio azul se me ha perdido ayer,
se fue...
 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

a noite


Era noite, tudo estava adormecido sentada no chão da sala, tentava que a frescura da noite penetrasse no seu corpo na busca de esquecer o calor sufocante dos últimos dias.

Ligava o gravador para ouvir, vezes sem conta, os poemas ditos e gravados especialmente para ela.
Cada palavra, a respiração, a ondulação da entoação, a doçura das frases,  libertavam nela ondas de ternura.
Desejava gravar na memória, no cantinho onde guardava as melodias das caixinhas de música, os risos das crianças, a voz pausada dos idosos, o riso dos amigos, o canto dos pássaros, o murmúrio do mar, o som da aragem na copa das árvores, as sinfonias, o som das baladas, era aí, que queria que os poemas ditos por ficassem guardados.
Não se permitia  pensar em futuros, nem queria recordar passados, antes viver este presente como ilha de prazer, onde vivia secretamente a felicidade de ter encontrado alguém que a compreendia e que aceitava as suas memórias, os seus passados semelhantes a raízes velhas, estendidas enterradas nas profundezas da terra, mergulhadas no ser complexo que era.. 
Fechava os olhos e pensava no corpo, no cheiro, na voz , nos gestos de ternura quando faziam amor. 
 Amava-o tanto.
Se ao menos pudesse chorar, sabia que as lágrimas ajudariam a minimizar a dor . Mas era sempre assim. As suas dores raramente se exteriorizavam em lágrimas. Antes se encolhia, se refugiava no silêncio, as palavras não fluiam, sentia-se como as flores que fecham as pétalas ao anoitecer.
Quando ele lhe disse que se ia embora quis gritar : '' não! não! Já não sei viver sem ti....' Mas as palavras ficaram presas na garganta. Seria incapaz de o chantagiar com choros mansos e manipuladores.
O amor, esse  não resistira à distância, à separação, aos caminhos trilhados a só . Ou, nunca fora amor.... antes paixão, fogo, desejo, erotismo....
Enterrava a cabeça nos joelhos, os braços enlaçavam as pernas, todos os seus músculos estavam tensos, rigidos....
 Não sabe quanto tempo ficou assim... Foi despertada pelo sinal luminoso do telemóvel, chegara uma mensagem. Não lhe apetecia ir ver o que era. A esta hora da noite certamente que seria algum apelo publicidade. Contudo ergueu-se, precisava beber água, a garganta estava seca do calor . Por hábito pegou no telemóvel... Era uma mensagem dele.
O seu coração disparou numa intensa batida. Parecia uma adolescente apaixonada. Leu '' serei sempre a tua caixinha de música....'' . Sorriu. Nessa altura deixou que as lágrimas aflorassem... a noite, a lua, as estrelas, a frágil brisa, tudo se transfigurou em objectos mágicos que só vê quem ama.... durou segundos. Sabia-o nos braços de outra.

terça-feira, 12 de abril de 2011

as árvores

Os diospireiros são as árvores mais belas do Outono ! Despem-se de folhas, olhando a sua silhueta em contra-luz, ao entardecer, o que vemos são ramos castanho escuros prenhes com suculentos frutos alaranjados. Um convite à orgia de mergulharmos a boca na polpa agridoce, viscosa, escorrendo da boca, desencadeando sensações orgíacas e, que nos desperta a memória de criança que fomos, quando nos  saciavamos sem cumprir as regras dos códigos sociais...


As romãzeiras... folhas verdes, brilhantes, com os frutos mascarados de flores, ou será o contrário? Em cada falso fruto, debaixo da casca agre e dura, gardiã de mil diamantes vermelhos que nos convidam a comer lentamente, serenamente, com uma calma antiga de tempos em que o tempo não tinha hora,.. Depois, perto de cada romãzeira haverá sempre água... adoram água... Dão-se pertinho das fontes, dos poços... E, a água é vida....


Os limoeiros... ou laranjeiras têm as flores com o melhor perfume que existe. Ainda não nasceu o perfumista que tenha conseguido captar o adocicado suave e encantado do aroma da flor de laranjeira.... em cada fruto há uma descoberta a fazer por debaixo de uma casca que adoro mordiscar até ficar com o palato meio dormente.... O meu avô Lino um dia chamou-me ''' Isabelinha, Isabelinha anda cá... anda ver uma coisa que nunca ninguém viu. Vais ser a primeira pessoa a ver isto.... '' e à minha frente puxou da navalha e descascou uma laranja...~'' Vês... nunca ninguém tinha visto estes gomos... Fomos os primeiros.... nunca te esqueças disto...'' ... cumpri a promessa ... nunca esqueci... enm o meu avô, nem a re-descoberta das laranjas... de todas as laranjas com que me cruzo na vida....








As magnólias... ah...essas são a beleza... o primitivo... o único... o efémero que tenho de guardar todas as Primaveras para recordar nos dias frios de Inverno....mesmo quando o inverno é dentro de mim....








Claro que gosto de muitas outras árvores... gosto de me abraçar a um velho carvalho e imaginar todo um mundo de druídas e duendes...  gosto de olhar demoradamente a cortiça que cobre os sobreiros.... gosto do recorte dos pinheiros mansos... ou daqueles que vivem à beira-mar e a quem as brisas marítimas dão formas peculiares.... Mas, aos poucos fui escolhendo.... fui sintetizando nas minhas quatro árvores todo o mundo botânico....


segunda-feira, 11 de abril de 2011


  Era uma vez uma estação de caminhos de ferro. Branca, com azulejos azuis colocados nas paredes, neles via cenas de ceifeiras, de homens com grandes chapéus a debulharem o trigo, pastores a guardarem varas de porcos sentados à sombra de sobreiros, gentes, costumes e paisagens do meu Alentejo, mas que na altura eu não sabia que era meu.
    Era de manhã, muito cedinho, uma neblina encobria os campos... eu saltitava entre malas castanhas com fechos pretos de latão meio enferrujados, na gare também havia cesto e de alguns saiam piares de galináceos presos... fazia frio e a minha avó recomendava-me em voz firme para eu abotoar o casaquinho de malha branca que a minha mãe me tinha enviado de Lisboa havia algum tempo.... Esperava ansiosa a chegada da automotora que vinha de Estremoz e nos levaria até Portalegre, onde apanharíamos o comboio que vinha de Castelo Branco e depois rumaria a Lisboa...
... a automotora nunca mais chegava... e eu vibrava de alegria de poder ir ver a minha mãe.... o meu pai... a minha irmã... Nesses tempos vivia em Cabeço de Vide com os meus avós, os meus pais não tinham condições para me ter com eles. A viagem de ida era sempre uma festa, uma alegria... O regresso, esse era mergulhado em lágrimas, com a minha avó a ralhar e lamentar '' até parece que te tratamos mal. Esta gaiata é mal agradecida... e terminava ...gaiatos...''
    Nesse dia na estação havia outra menina, ao contrário de mim vivia com os pais em Lisboa e tinha vindo visitar os avós... tinha na mão uma caixa preta... a minha alegria era tanta que me aproximei dela... Já não sei o que dissemos. Só me lembro que abriu a caixinha preta, e lá de dentro surgiu uma pequena bailarina a dançar e uma música suave e linda.... Fiquei fascinada... pedi-lhe para segurar... fechei e abri suavemente a caixinha para ver adormecer a bailarina....
   Durou pouco o encanto. Ela e os pais foram noutra carruagem, eu e os meus avós fomos perto da entrada por causa dos tais cestos com galinhas e de outros que levavam queijos, chouriços, mel, nozes... mimos alentejanos para os meus pais matarem saudades da terra...
.... não me lembro de mais....
Mas esta memória perdurou e ainda hoje ao colocar a tocar as caixinhas de música  lembro aquela manhã fria, nevoenta e mágica.

domingo, 10 de abril de 2011

Reminiscência

"...Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..."
(eu sabia de cor toda a geografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em geografia
e disse gravemente:
- "Continua. Hás-de ser gente..."
"Ângulo recto, agudo,
cateto, hipotenusa...
(já manchara de giz a minha blusa
mas respondia a tudo
e a professora sorria
enquanto eu papagueava a geometria)
"...D. Sancho, o Povoador...
D. Dinis, o Lavrador...
(Tinha então boa memória,
sabia as datas da história...)
1580
1640
1143
em Arcos de Valdevez...
(Muito bem, sim senhor!
A pequena é simpática)
E depois, em voz alta, o senhor Inspector:
- Vamos à gramática." -
"...E, nem, não só, mas também...
conjunções copulativas"
(Eu pensava na alegria
que ia dar a minha mãe,
nas frases admirativas
da velha D. Maria,
a minha primeira mestra:
- Tão novinha e ficou "bem"!" -
e esta suavíssima orquestra
acompanhava em surdina
o meu primeiro exame de menina


aplicada, orgulhosa e inteligente...)
- "Vá ao quadro, menina! Docilmente
fiz os problemas, dividi fracções,
disse as regras das quatro operações
e finalmente
O Senhor Inspector felicitou-me,
quis saber o meu nome
e declarou-me
que ficara "distinta" sem favor.
Ah! Que esplendor!
Que alegria total e sem mistura,
que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol e a claridade
não me cegou, julguei-a quase escura...
As estrelas, fitei-as como iguais.
Melhor: como rivais...
E a Humanidade
pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)
Pouco depois, em casa, a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio
à terra, ao céu, ao mar, ao rio:
- "O mãe, eu já sei tudo!"
No seu olhar tranquilo de veludo,
no seu olhar profundo,
que era todo o meu mundo,
passou uma ironia tão velada,
uma ironia
tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro cada dia:
"-O mãe, eu não sei nada!..."

        De Fernanda de Castro in "Trinta e nove poemas" (1941)


memórias

  
Se fechar os olhos oiço os sons da cidade a acordar, o piar das gaivotas, o apito dos barcos no Tejo, o murmurar suave dos ensonados e o silêncio de alguns ainda mergulhados nos sonhos da noite.

   Por aqui o dia acorda de maneira diferente, o abraço da serra, o seu véu de neblina, o sol timido que se espalha pelos vales. Os sentimentos  perante a beleza e o novo dia, são idênticos, as manifestações, os gestos e as formas de expressão é que diferem.
   O cheiro do café matinal, o barulho do vapor das máquinas cimbalinas, o bolo que se come apressadamente, o bom dia que não se dá ao vizinho é algo que não existe na pacatez matinal de aldeia.
 Por aqui os locais de trabalho, ou são muito perto, ou obrigam a viagens de carro,  transportes públicos eficientes ainda são um desejo não concretizado.
   Contudo, e isto não confesso quem me disse,aqui como na cidade, a descoberta nocturna dos amantes acontece, os corpos são invadidos pela paixão, as promessas de amor concretizadas. O amanhecer nem sempre valida a doçura sonhada e vivida com olhos semi-cerrados pela penumbra difusa da noite mas o sorriso fica mais luminoso.
    O real é consequência do que nos rodeia, aprendi isto com esta opção de viver fora da cidade.
 Isso constrói os homens e as mulheres transformando-lhes até as palavras, as frases e os gestos, mas não os sentimentos.
Tudo por aqui é mais lento, tudo adquire dimensões diferentes. Talvez a serra com a sua imortalidade, a sua sombra e beleza, os seu poderes mágicos seja a culpada,  pelos  gestos contidos mas determinados destas gentes.
 Falando de magia que os lugares nos transmitem, lembro o prazer que sentia na infância quando em passo de corrida subia a um monte, perto de minha casa ,onde chegava ofegante e, para descansar me sentava numa pedra, a brisa maritima batendo-me na cara e ficava a olhar os campos que se estendiam até ao mar.
Era uma sensação deliciosa. Só tinha pena de não poder voar. Semi-cerrava os olhos e deixava-me cegar pela luz do sol reflectida nas águas do Tejo e fantasiava sobre quem viveria no farol do Bugio.
Ainda hoje me é difícil explicar o porquê desse fascínio, dessa necessidade de me sentir só envolvida por uma multidão, que sabia existir mas que não estava presente.
 Hoje é um pouco o que sinto quando olho as encostas, as neblinas que delas se levantam, o mistério que tudo isso envolve.... e sonho de novo....



sexta-feira, 8 de abril de 2011

mangericos

Arrumava os papéis do escritório. Era a arrumação sempre necessário no Verão, rasgar documentos, seleccionar outros e arrumá-los em pastas... de dentro de um caderno usado para as programações das aulas, saltaram um conjunto de folhas que tinha escrito como se fora uma conversa com alguém....

« Entre o Stº António e o S. João há sempre festas nas escolas. Esta noite fui convidada para ir à escolinha de um aldeia, uma escola que vai fechar... não podia recusar.
Quando cheguei à aldeia, parecia só existir vida naquele espaço. No negrume de uma noite sem lua, a luz que provinha do edifício escolar, de tão intensa, parecia querer substituir o sol que há muito se tinha escondido.
Ao entrar quase me senti sufocar, o ar estava irrespirável, muito fumo de cigarros e dos fogareiros onde se assavam sardinhas, pimentos e carnes.
Na mistura de cheiros sentia-se o aroma de transpiração em coktail com desodorizantes intensos. A pessoas vestiam roupas domingueiras, compradas certamente no mercado semanal. As mulheres envergavam saias, blusas, folhos, tules, chinelas altas, lantejoulas. Os homens calças vincadas, camisas de quadrados, botões abertos até meio do peito mostrando os pêlos e os grossos fios de ouro, debaixo dos sovacos largas manchas de transpiração. 
Tudo tão belo e tão feio!
No meio do salão as mesinhas da escola transformadas em mesas de refeição - toalhas de papel e vasos de mangericos, onde um cravo de papel com a sua quadra agregada, davam o toque que nos recordava que estávamos nos Santos Populares.
Os mangericos ofereciam o melhor perfume da noite, cheiram tão bem os mangericos! O seu perfume e a cor são como códigos, o verde lembra a frescura do Inverno e o aroma anuncia-nos o Verão.
Ai quantos corações não estiveram já suspensos da quadra que cada cravo e mangerico lhes prometia... confesso que também me apressei a ler a que me saiu :
'' S. João, S. Joaninho
Dá-me muita alegria
um bom namoradinho
e boa comidinha.'''

...queria tanto tê-la lido com o meu amado...
Porque é bom partilhar com quem se ama.
Não imaginam quem me rodeava o esforço que fiz por sorrir, para não me tornar uma ilha de solidão rodeada de alegria e gente....
Olhando em meu redor é certo que vi outras ilhas, outros sinais de sorrisos tristes, pessoas sem pontes que as liguem ao afecto de outros.... ilhas de um só habitante.
Devíamos ser educados para vivermos sós.
Ou então para sermos poligâmicos. Era tudo bem mais simples. Deixava de existir o ciúme, a posse...  Há de facto muita culpa na educação que nos dão, naquilo que nos prometem nos contos de fadas, nas fábulas, os príncipes, os sapos, os lobos maus, os finais felizes...
De facto é tudo verdade.
Amamos feios ( os sapos) a quem achamos lindos, aceitamos brincar com o lobo-mau, vimos estrelas ao meio-dia, pássaros verdes em árvores azuis... de facto há magia e poesia quando amamos.
Só se esquecem de nos ensinar que não passam de fugazes momentos. Tudo é efémero. As dores de parto, as dores de dentes, as paixões, os queixumes, as alegrias... a vida não é mais do que uma cadeia, uma corrente em que cada elo tem uma alegria, uma tristeza. uma dor, um prazer, um orgasmo, uma infidelidade, uma esperança, uma estrela...
 Depois os elos vão-se repetindo, alguns com ritmos que prevemos, outros quase fruto do acaso.
Gostava de acreditar que podemos alterar as sequências, mas a realidade desmente essa capacidade de alterar a cadeia da vida...
As pessoas que crêem, que têm fé, são mais felizes.Remetem para uma entidade exterior o bom e o mau que lhes acontece. aqueles, que como eu não crêem no destino, sentem-se mais culpabilizados pelo rumo que dão aos seus actos, pelas palavras ditas e pelas não-ditas... que muitas vezes determinam o rumo dos acontecimentos...
Voltemos à festa. É sobre ela que quero escrever e não sobre dúvidas existenciais.
Foi a música que uniu as pessoas, ou antes as pessoas agruparam-se de acordo com o que se tocava.
Principiou com folclore. Um grupo de alunos dançando e cantando, nos seus rostos brilhava alegria e timidez. No rosto dos pais e avós os sorrisos orgulhosos de terem descendentes tão dotados.
Seguiu-se uma banda de jovens, todos vestidos de negro, que cantaram velhinhas baladas do Zeca, do Adriano. os intelectuais, os pseudo-intelectuais e os que gostam de acompanhar com doutores animaram-se. Fui uma delas!
O povão do folclore saiu de mansinho para o pé das sardinhas e dos petiscos....
É verdade que o vocalista nunca entrou no tom, acho que só apanhava a linha melódica a meio da cantiga, mas ninguém parecia importar-se com isso. A esta hora da noite, depois de uns copos de cerveja e vinho, o que menos importa é a afinação.
Importante era mesmo cantar, desafinar, bater palmas, bater com as colheres nas mesas... o álcool faz destas coisas.... Deturpa o ouvido, altera as palavras, aumenta a sensibilidade na pele e o erotismo até aí quase ausente daquele espaço, surgiu. Perceberam-se certas carícias entre namorados, ditos brejeiros dos mais velhos aos decotes das damas presentes, até o Presidente da Junta pespegou um beijo na boca da senhora sua esposa.
Uma delicia... teria gostado tanto quanto eu!
Era hora da festa terminar para mim. Também algumas crianças já cediam ao cansaço e aos deuses dos sonhos, dormitando em cima das cadeiras, ou encostadas aos ombros de avós.
As mesas começavam a ser limpas e iam retomando o seu lugar nas salas de aula.


Mesas cuja função original e primordial era o serem suporte à aprendizagem dessa coisa bela e mágica que é o falar das letras, sejam escritas por nós ou por outros.
Fazes-me falta amado sem rosto, sem corpo, sem ser.... queria acabar a noite mergulhada em ti.
 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Toda a noite te procurei.
Sonhei com becos, ruas estreitas, janelas que abriam para telhados. Muitos telhados velhos, corcomidos pelo tempo, com erva-arroz a nascer nas telhas, musgo, a neblina adensava a impossibilidade de em outros horizontes te procurar.
Depois andei por campos, daqueles que rodeiam algumas povoações urbanas, com minúsculos projectos de hortas, barracas feitas de tábuas velhas e bidões abertos a servir do telhado.
Procurava-te.
Procurei-te numa escola velha, parada no tempo, onde me obrigaram a fazer trabalhos para alunos num linóleo antigo, igual ao que usei quando comecei a dar aulas, fiquei suja de tinta preta e viscosa.
Chorava desesperada, mas em silêncio, porque me impediam de sair e de te procurar.
Afastava os cães. Empurrava o meu cão que teimava em seguir-me e num silêncio barulhento me questionava com os seus olhos cegos e opacos pelas cataratas, contudo ainda doces, meigos e leais, não entendiam porque recusava a sua fiel companhia.
Trepei veredas em bosque de carvalhos e castanheiros. Olhava as copas, embora a folhagem onde se adivinhavam risos trocistas, teimavam em me deixar ver.
Procurei-te.
Percebi que procurava um felino. Algo esguio, fugidio, que sabe a arte e truques do disfarce.
Procurei-te.
A noite caiu sobre a minha busca.
A lua não nascia.

Questionava onde poderia estar a lua cheia da noite anterior.
A escuridão, o desalento, o cansaço venceram-se.

 No sonhos do sono, adormeci enrolada em mim encosta à casca dura,  áspera mas fofa de um sobreiro.... A cortiça aquecia-me as costas, minimizando o gelo de solidão que teimava em possuir-me.

Procurei-te....

vazio

hoje estou vazia....
perderam-se as palavras em mim
procuro-as
nada mais encontro do que vazio

para onde foram palavras minhas?

queria dizer carinho, ternura, raio de sol
ou dor, guerra, desalento
mas só me resta uma única palavra

saudade

saudade dos amigos que já o foram
dos amigos que partiram
saudade da minha Lisboa, do Tejo, das avenidas

saudade

saudade do tempo em que acreditava
no amor, na partilha, nos homens

hoje resta o silêncio em mim
e o silêncio rouba-me as
palavras

quarta-feira, 6 de abril de 2011

'' - Flores? Disseste flores? Recebi inúmeras margaridas ainda há menos de uma hora!  Juntei-as às que já perfumavam a minha vida, embora te confesse que algumas estavam a ficar murchas..''. - respondeu sorrindo à pergunta de Pedro e continuou :
'' - Agradeço as rosas é sempre agradável receber flores e uma atitude muito amável da tua parte. Contudo Pedro, e porque há muito me revolto contra a hipocrisia e dissimulação de atitudes e sentimentos, deixa que te diga, que só ficarei com este ramo caso ele represente amizade. De outra forma terei do recusar.!
Pedro ficou durante segundos ficou sem palavras. Mas esboçou uma resposta : ?
Claro, claro... é só para perfumar a nossa amizade.''

Sabia que não era. Continuando a olhar o ramo e os olhos do colega respondeu :
- '' Então aceito, mas não as vou levar para casa, vou oferecê-las a Sofia para que alegrem a sala de estar do Lar de Idosos. Não levas a mal pois não? Bom, então conta-me lá do projecto e esses teus planos para o novo ano lectivo.''
O senhor Quimera, que vagueava de mesa em mesa limpando os já mui polidos tampos das mesas, sorriu. Eles não se tinham apercebido da sua presença, porque anos de trabalho no café tinham-lhe desenvolvido uma capacidade felina de se aproximar e afastar dos clientes, sem que a sua presença fosse notada.
Pedro começou a falar, enquanto ela acedendo com a cabeça ia em simultâneo espreitando o visor do telemóvel, pois aguardava a doce escrita de Carlos.
A presença e o discurso de Pedro quase a incomodava, respondeu-lhe mesmo com alguma impaciência e percebeu que precisava de estar sozinha.
As rosas, aquele encontro a despropósito e um certo ciúme que sentia no ar, fizeram com que abruptamente interrompesse o colega e dissesse:
''- Pedro, Pedro meu amigo lamento não poder ficar mais tempo mas tenho mesmo de ir para casa. ''

E quase fugindo, despediu-se de Quimera e do grupo de debates, como adorava aqueles homens !!!
Gente com o trabalho e a dureza do passado traçada em cada ruga da pele, as mãos grossas , crestadas por geadas e sol e contudo bastava olhá-las para se perceber quão segurizantes eram.
Saiu tão rapidamente que esqueceu as flores em cima da cadeira.
Caminhou em passo apressado até ao Parque.
Chegada lá endireitou as costas, olhou o céu e a copa das árvores e procurou o velho carvalho . Acariciava sempre o seu grosso e sólido tronco, a rugosidade transmitia-lhe paz e lembrava-a dos inúmeros invernos que ele já tinha vencido.
Sentou-se num banco , semicerrou os olhos e pensou nos acontecimentos do último fim de semana. Ainda sentia em todo o seu corpo as carícias de Carlos, os beijos de Carlos, os sussurros de Carlos, o olhar húmido de Carlos, o sabor a sal da pele de Carlos, a respiração ofegante de Carlos, o aroma de todas as partes do corpo de Carlos.
Sorriu, quase deu uma pequena gargalhada, de facto doía-lhe o corpo, as ancas, da noite de amor....
E sorriu....
Carlos.... meu rio, meu sol, meu luar, meu jardim de margaridas, minha poesia em jeito de gente....

Como ia sofrer longe dele, como ia sentir ciúmes de o saber a partilhar o mesmo céu que Estrela.
Estrela, uma palavra de que tanto gostava e que começava a detestar.
Notava-se que Estrela era uma mulher ardente, sabia como pôr louco um homem, como o dominar com as artes do erotismo, com a sedução de um corpo roliço sem ponta de celulite, de seios grandes, olhar profundo que parecia sempre  anunciar e prometer infinito prazer carnal.

Não tinha nenhum desses atributos. Escondia o corpo desajeitado,  tinha um peito banal, usava o cabelo curto, não se maquilhava, não usava roupas sensuais.....O seu ex. companheiro dizia-lhe que tinha seios de adolescente e pele de bebé, nunca conseguiu perceber se era um elogio ou uma crítica.

Não... não... gritou em silêncio.
Não!
Carlos não gosta do meu embrulho, gosta de mim.
O embrulho é efémero, não só corroido pelo relógio do tempo, como se pode destruir com um acidente ou doença.... O que contam são os sentimentos, os valores, as atitudes partilhados, a cumplicidade, o prazer de conversarem de tudo e de nada, o conseguirem rir um com o outro e para o outro... e ambos saberem como adoçar e serenar as incertezas e os medos do outro.
Mas, como quase todas as mulheres que já tinham sofrido por amor, sentia sempre uma grande insegurança e perdia-se em medos que racionalmente resolvia, mas que emocionalmente a dominavam.
Estas mulheres fogem do amor. É frequente que numa segunda relação prefiram a segurança de um companheiro banal, sem grande ardor envolvido, sem paixões enebriantes, um homem que não tenham de disputar com outras mulheres e por isso não lhes mobilize muito libido ou emoções.
São mulheres que passam a negar os contos de fada com fim feliz e assumam que o importante é o sofá partilhado, a certeza dos horários, a segurança das relações sexuais rotineiras com dia e hora marcados.

. Mulheres que não têm companheiro, mas têm companhia. 

Algumas tornam-se um pouco tristes, uma tristeza tornada resignação, a qual é envolvida num pouco de inveja para com as outras mulheres em cujo olhar adivinham as inquietantes noites de amor.
A vibração do telemóvel despertou-a da torrente de pensamento que a percorria . Era uma mensagem de Carlos : '' Pela janela do comboio olho o céu, em cada tonalidade de azul revejo-te, meu poema.''
Sussurrou '' meu capitão'' . Entre as muitas cumplicidades existia o livro de poemas de amor de Neruda, que tinha sido partilhado a dois....



A serenidade da noite parecia enlaçá-los.
 As estrelas brilhavam intensamente e de quando em quando um traço luminoso riscava o negro do firmamento. Nesses instantes a  proferia mentalmente um desejo, não o confessava a Carlos, mas desde pequenina que o fazia a conselho do avô. Não acreditava, mas era bom por momentos sonhar que alguns dos pedidos se poderiam concretizar.
Não era difícil nesta noite adivinhar qual o desejo que formulava : '' voltar a namorar com '' no muito que essa palavra encerrava.
Namorar contem em si o acto de amar.
Amar sem ameias, sem correntes, sem âncoras, amar pelo prazer de se ver no espelho dos olhos do outro, namorar envolta em ternura, em riso, em suor, em cumplicidades pequeninas que formam mundos secretos vividos e partilhados a dois.

Namorar é a utopia da felicidade quotidiana...

Isa ia pensando num dos textos mais belos que conhecia
........Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a roupa mais leve e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fadas. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
..............................Enlou-cresça.
Carlos Drummond de Andrade

Como parece fácil aos poetas colocarem em palavras, os milhares de sentimentos que flutuam dentro de cada um de nós quando estamos apaixonados.
Caminharam até casa, abriu a porta, acendeu a luz, mas assim que a porta se fechou Carlos abraçou-a, procurando os seus lábios e apagou de novo a luz. Estavam rodeados pela penumbra e luz difusa que passava das janelas, cujas persianas se encontravam abertas.
Retribuiu as carícias, os afagos, os beijos e, com alguma ousadia, começou a despir Carlos mesmo na entrada de casa
Não houve palavras, mas houve um intenso diálogo de corpos, de mãos, de lábios, que procuraram com ansiedade vencer o mar de saudades que ambos traziam em si.

A madrugada encontrou-os abraçados, corpos vencidos pela paixão e saciados pelo desejo, a dormirem serenamente como só dorme quem ama e é amado

Sentia-se pintada de pó de estrelas... Brilhava por dentro de tão serenamente feliz que estava.
 O encontro com Afonso tinha sido afectuoso, calmo e reconfortante depois da ausência de meses acompanhada de silêncios.
Saira de casa em direcção ao Centro Cultural onde combinaram encontrar-se com algum receio de como o mesmo iria decorrer . 
 Mas Leonor é uma   mulher frontal, não fugindo aos desafios e preferindo encarar as situações ao invés de fugir.
 É certo que tentava esconder o seu lado mais sensível, a sua leitura poética do quotidiano, o seu contínuo deslumbramento por pequeninas coisas.... um voo de pássaro, um pôr de sol, a primeira papoila, um poema, uma melodia que a emocionava, uma imagem, uma pintura.  Só os seus eleitos conheciam esse seu lado sensível,   esse seu eu.
Quando o fazia era como se desnudasse a alma, ficava insegura e rapidamente brincava e fechava de novo esse seu mundo ao mundo.
Afonso era seu amigo desde o tempo em que era chamada de NôNô, ou seja desde o liceu. Tinham feitos inúmeras coisas juntas, porque cedo descobriram que partilhavam os mesmos ideais democráticos. Cravos, cravo era a flor que poderia sintetizar o caminho partilhado , primeiro nas associações académicas, no movimento sindical e mais tarde nas eleições autárquicas.
Leonor tinha tido alguns namorados, mas cedo decidira viver sozinha. Percebia, por vezes que algumas pessoas se punham a adivinhar sobre a sua vida, até sobre a sua orientação sexual. Gostava de manter, e até alimentava, essas dúvidas raramente falando da sua família.
Com Afonso podia ser totalmente, podia falar, rir, emocionar-se sem se esconder por detrás da personagem que construira para se defender.

Sentada no átrio do Centro cultural, olhando distraidamente quem passava, saboreando a melodia de uma flauta tocada por uma jovem virtuosa no jardim interior que ligava os diferentes espaços , recordava o último encontro com Afonso.
Tinham andado, com outros amigos, pelos bairros de Lisboa festejando o Santo António. Um deles fazia anos nesse dia e era um pretexto, como outro qualquer, para terem brindado inumeras vezes ao aniversariante e acompanhantes.
No fim da noite com o cheiro do fumo de sardinhas colado ao corpo, as mãos cheirando a cerveja e a mangerico, a lucidez toldada pelo alcool e pela alegria, Afonso pediu-lhe se poderia ficar em casa dela, porque já não tinha transportes públicos a essa hora.
Leonor, não sabia com exactidão o que se tinha passado. Lembra-se vagamente das caricias, dos cheiros, dos corpos em dança de paixão, da doçura que ainda hoje permanecia em si.
E gostara... por isso não sabia se era sonho se utopia realizada.
Quando acordara de manhã ao lado do amigo sentira pudor, alguma vergonha e saltara da cama, vestindo-se rapidamente. Saira de casa deixando um bilhete colado no espelho da casa de banho : '' Está à vontade. Come. Deixa a chave na caixa do correio. ''
Nunca mais se viram.
Trocaram algumas frases na net. Mails nas ocasiões festivas e nada mais.
Envolta nestas divagações assustou-se quando , como um sopro de voo de borboleta, alguém lhe sussurrou '' Olá...'' era Afonso.
.....

amantes


Não sabem quanto tempo estiveram juntos.
 Acordaram, dois corpos entrelaçados por muito mais que o fogo da paixão. Esta existiu, em cada pedacinho de pele antes adivinhada e agora descoberta, saboreada pela boca, memorizada pelo olhar de quem há longos meses desejava aquele momento.
Foram poucas as palavras. As mãos, ah as mãos essas tocaram-se como quem faz promessas.... as mãos entrelaçadas, ou condutoras de ternura, para que o outro descobrisse cada pedacinho do ser. E riram e brincaram e esqueceram que para além das paredes do quarto outro mundo existia...
 Foi escrita poesia durante aquelas horas... a poesia de quem ama sem barreiras... de quem se entrega na certeza de não ser prisioneiro, de quem deixa o outro ser para que se complete....
 Ela no seu êxtase de amante chorou emocionada por ser tanta a felicidade que sentia. Carlos serenou-a e embalou-a num longo e terno abraço... foi assim, cansados que adormeceram...
Sorriram quando acordaram. Acenderam a luz, Isa tapou ligeiramente o rosto ao descobrir que estava nua... foi estranho ter sentido esta pontinha de pudor perante o seu amado... Carlos brincou com ela....
'' Vamos fazer chá? Comer bolachinhas, torradas...'' , '' vamos a isso, estou esfomeado, acho que não como há um século...''
Todo o prédio estava mergulhado em silêncio, assim como a rua. Era tarde, quando olharam o relógio nem queriam acreditar '' Duas da manhã?? Impossível...'' disse Carlos...
Quando ela barrava as torradas, Carlos falou-lhe de mansinho : '' achas que tudo já está dito?'' . '' Não sei... ou antes sei que pouco, muito pouco está dito....'' respondeu ela e continuou:
 '' Seria também impossível relatarmos as nossas vidas com precisão , por vezes o que nos fica na memória é comparável a um quadro impressionista, manchas de cor, de luz, sombras, cores escuras, horizontes que se adivinham.... Podemos é fazer um pacto. Só a verdade existirá. ''
'' Não sei se consigo - respondeu Carlos. Eu fujo da verdade. Não minto, mas fujo usando a arma do silêncio...'' .
'' Eu comprendo carlos, também faço isso. Faço com muita frequência, não é bem calar-me é não falar do que verdadeiramente me preocupa. Uma amiga costuma dizer que eu em matéria de afectos ,assobio para o ar, e disfarço..''
'' ´Menina linda não vai ser fácil viver comigo...Sou ciumento, inseguro, nessas alturas torno-me mordaz...'' 
'' Eu não sou uma santa, tenho mau feitio, altero o tom de voz a despropósito, faço a ladainha da coitadinha, da mais infeliz do universo, um horror... Só te posso prometer que lutarei... lutarei por nós.... pelo que representa ter alguém como tu para partilhar, para ser meu cumplice, lutar a teu lado pelos teus, ou antes nossos, ideiais.. isso é a única coisa que posso prometer....''.
Carlos levantou-se, dirigiu-se-lhe, ajeitou-lhe as golas do robe, puxou-a para si e com muita suavidade beijou-a e num sussurro risonho disse-lhe : '' já é tão tarde... E se nos fossemos deitar.?..''


RENÉ MAGRITTE- Os Amantes


domingo, 3 de abril de 2011

... as minhas.

O dia de trabalho chegou ao fim. Doem-me as mãos. Olho-as. Quase não as reconheço ...
Mãos que pegam em pás, vassouras, tesouras, shampoos, secadores... penteiam e desabaraçam pelagens.
Mãos que ajudaram a nascer mais de meia centena de cachorrinhos.
Mãos que ansiosamente massajaram pequeninos corpos para lhes trazer vida.
Mãos que afagaram cadelas ofegantes, doridas e exaustas.
Mãos que sentiram secar entre os dedos os liquidos primordiais da Vida.
Mãos que sabem o calor de uma placenta.
Mãos que esqueceram a escrita.
Mãos que descobriram a textura da terra, o frio da geada, o calor do humus, a dor da picada de urtigas.
Mãos que esqueceram a delicadeza da agulha de crochet, da seda de bordar.
Mãos que secam lágrimas de tristeza, mas também de alegria.
Mãos que se adoram ser lambidas e mordiscadas.
Mãos que colhem ramos de alecrim e alfazema.
Mãos...
... as minhas.

entardecer

Teresa mexia, como quem acariciava, um raminho de heras.
Alguém um dia ´contou-lhe que a hera era o símbolo do amor ... pensava em tudo isso, sentada num banco no Parque Verde da vila,  enquanto lembrava os acontecimentos do dia.
A macieza das folhas da hera, a forma de coração de cada uma delas fazia-a sentir ainda mais saudades do seu amigo.

Na escola, e com a armadilha armada contra o professor Felício, tinham-se resolvido alguns dos problemas e medos. Medos gigantescos que atormentavam as meninas violentadas pelas asquerosas mãos do professor, que procuravam erotismo em corpos inocentes.
Homens cobardes sem coragem de assumir a sua sexualidade perante figuras femininas adultas.
Na caixa de textos passada de sala em sala, onde as crianças relatavam o medo e a coragem, tinham aparecido algumas redacções onde o nome de Felício era citado como o causador de angústias e receios. A abertura da caixa frente à maioria dos docentes, impediu que houvesse a negação daquilo que estava a ser constatado por todos.
A fuga do professor foi interrompida quando descobriu que o seu carro tinha os pneus vazios e que a rua estava barrada por um burro e uma mota. Obra certamente de Estivas. Isa não o tinha descortinado, mas só ele para pedir ajuda a duas figuras tão sui-generis, do todo que era a vila.
Depois de chamada a GNR foi levado para prestar declarações. Nos próximos tempos não apareceria com toda a certeza na escola, se é que depois da instauração do procedimento disciplinar, ainda lhe permitissem voltar ao ensino.
Teresa sentia-se serena, sem medo, segura de que tinha procedido da melhor forma. Mas neste momento o  que mais desejava era o carinho de Carlos. Os seus braços, o calor do seu corpo, a sua respiração junto à nuca, as mãos unidas .... Sonhava com o próximo Domingo, pois tinham prometido a Margarida irem até à beira-mar para lançarem um papagaio.
Precisava destes momentos a sós.
De um modo muito rápido o seu quotidiano tinha sido docemente invadido pela pequenita Margarida, que com a sua alegria preenchia todos os recantos da casa, por Carlos a quem comprara uma escova de dentes, embora ainda não pendurasse a roupa no mesmo roupeiro. Ainda havia Rodrigo a quem sentia como um sobrinho e que a preenchia e ajudava a descobrir o mundo dos adolescentes, tão cheios de certezas, de necessidade de mostrarem que já têm asas para voar e ao mesmo tempo ainda tão dependentes dos adultos.

As nervuras da hera, o verde claro escuro da folhas, as minúsculas raízes, o cheiro agradabilíssimo da tília, o canto vespertino dos rouxinois, tudo a enchia de nostalgia.

Tinha que endireitar as costas, respirar fundo, olhar o horizonte e decidir-se a voltar ao mundo real, onde a esperavam aqueles a quem amava.
Olhou o telemóvel para ver as horas e reparou que tinha uma mensagem : '' Pequenita, tenho uma reunião. Não sei a que horas acaba... um beijo Carlos''
Logo hoje? Que desejava tanto o calor do seu abraço, o aroma da sua pele. 



Café República

sábado, 2 de abril de 2011

quero que saibas uma coisa

Quero que saibas uma coisa.

Tu sabes como é:
se olho a lua de cristal, os galhos vermelhos do outono em minha janela,
se toco junto ao fogo as impalpáveis cinzas
no corpo retorcido da lenha,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe:
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam em direção às ilhas tuas que esperam por mim.

Agora, bem,
se pouco a pouco tu deixares de me querer
pararei de te querer
pouco a pouco.

Se de repente me esqueceres
não me procure,
pois já terei te esquecido.

Se consideras violento e louco o vento das bandeiras que passa por minha vida
e decidires me deixar às margens do coração no qual tenho raízes,
lembra-te
que nesta dia,
a esta hora
levantarei os braços e minhas raízes partirão em busca de outra terra.

Mas
se em cada dia,
cada hora,
sentires que a mim estás destinado com implacável doçura,
se em cada dia levantares uma flor em teus lábios para me buscares,
oh meu amor, oh minha vida,
em mim todo esse fogo se reacenderá,
em mim nada se apaga ou se esquece,
meu amor se nutre do seu, amado,
e enquanto viveres
estará em teus braços
sem deixar os meus.

Pablo Neruda

 
Levantei-me com uma enorme vontade de escrever.
 Assim fiz. ...
  Queria partilhar um malfadado refrão que ecoa na minha cabeça desde ontem ...''' até o padre gritou : aperta, aperta com ela'''  Vou começar pelo principio.
  Nas últimas semanas andei abatida, triste, sem vontade de escrever, fechadinha na minha concha, chegando a ouvir comentários '' andas agastada! que se passa, nem pareces tu?!,....'' e tinham razão porque andei zangada com a vida, comigo e mostrei má cara a meu mundo...
... mas este fim de semana resolvi que já não tinha paciência para me aturar... Claro que esta conclusão resultou de muitas horas de auto-avaliação e auto-repreensão e algumas lágrimas tolas...
Assim, no sábado fui à apresentação de um livro de um amigo obrigando-me a estar entre e com pessoas, por outro lado partilhar a alegria de alguém que ao fim de muitas horas de trabalho conseguiu publicar um bom documento sobre Jogos Tradicionais, mais especificamente sobre um jogo ( o do Beto)que segundo parece só é jogado na região da Lousã..
   Por vias de resolver mesmo esta angustia fui ao mercado mensal numa aldeia aqui perto.
 Gosto de me perder entre tendas e vendedores de quando em quando, pois deparámo-nos com pessoas que são tão diferentes daquelas com quem nos cruzamos no nosso dia a dia...
Homens e mulheres do nosso mundo rural... Discutem os enxertos, a qualidade das videiras, os adubos, as enxadas que já não têm tempera, o preço miserável que lhes deram pela azeitona...  Todo este ambiente envolvido no cheiro de couratos e febras assadas, gritos  de crianças que correm felizes indiferentes ao frio entre as ruelas provisorias, só para a montagem das inúmeras barraquinhas e, em pano de fundo o som estridente de músicas - não sei se populares, pelo menos com grande procura e venda - e, para mal dos meus pecados, não é que não bastando ontem à tarde, à noitinha e hoje de manhã dar por mim a trautear um refrão horroroso...cheguei à escola e um grupo de alunos de 6º ano, improvisava um baile ( destes que ainda existem por aqui...) e em coro cantavam '' ...até o padre gritou : aperta , aperta com ela''' ...
Dei uma gargalhada... e decididamente comecei bem a semana...
...mas, a letra desta canção ( ou será cantiga?) daria um belíssima aula de educação sexual
...


Violência

Vamos lá então falar de violência doméstica....

Tema complexo, multifacetado, escondido, clandestino.... e que assume diversas formas entre a violência física, a opressão e repressão emocional...  Isto todos sabemos....

Só que o processo de opressão é lento... Nunca se sabe quando foi a primeira vez que perdoámos e não o deveríamos ter feito... Vamos perdoando, procurando esquecer, embrulhando a dor e humilhação nas escassas situações de bem-estar ou mesmo de sexo....  vamos colocando a nossa auto-estima nos becos escondidos do nosso eu....
Vamos pintando sorrisos no rosto que amanhece sempre duro, vamos perdendo a graciosidade dos gestos, não nos apetece vestir mas enfiamos roupa sem jeito....
Vamos investindo em outros aspectos da nossa vida.... na profissão, por exemplo....

Escondemos as marcas do corpo com lenços, calças, mangas compridas em dias de calor estival...
As marcas da alma essas permanecem ao longo da vida ...
.... e o silêncio invade-nos....
.... e a solidão........ essa passa a ser a nossa companhia permanente

........e, as lágrimas correm-na nas longas madrugadas em que queríamos ser outros... queríamos fugir ... queríamos morrer..........


Depois percepcionamos e compreendemos poro a poro o que significa '' alienada '' -
... Alienada - porque te recusas a aceitar que seja a ti, logo a ti, que gritas tão alto pelos direitos das mulheres... Alienada - porque recusas ver que já não és amada .. Alienada - porque nos dias mais dolorosos, em que choras sózinha no chão frio, aninhada como um animal ferido, ainda assim... repetes . '' Ele vai mudar''' Alienada - porque achas que se calhar a culpa é tua , recusaste o sexo no tal dia, não engomaste a camisa e nem sempre fazes o jantar ou os petiscos que ele gosta........

E, vais flutuando entre os dias, fingindo lado a lado várias vidas........

 Tens medo dos fins de semana, passas a detestar o Natal, a Páscoa, as férias de Verão..........porque significam mais tempo junto ao outro, ao agressor.... E, vais-te tornando amarga, azeda, ácida... as rugas invadem o rosto.... recusas olhar o espelho... os cabelos enbranquecem... mas nada importa porque não há futuro....

... depois, se tiveres sorte, talvez um dia se rasgue o medo que transportas aguilhotinado no peito.... com sorte um dia perdes o medo da morte.... com sorte a vida fala mais alto dentro de ti..... e... foges.
Terminou mais um dia de trabalho. Em passo lento de fim de jornada dirigi-me ao Café. Lá dentro numa mesa três velhotes, de vestes escuras, dois deles encostados à bengala falavam de futebol... '' Nã senhor... nã há direito de quebrarem as cadeiras, são do povo... a polícia mesmo ao pé... e uns rapazolas aos pontapés aquilo que é do povo....'',  '' ... é assim.... agora é assim...
Mas olhe ( e soltou uma gargalhada...) nós não éramos muito melhores, só não aparecíamos na televisão... quando era moço veio aí jogar o Eléctrico Clube de Coimbra... foram os ricos que os trouxeram... o Manel Lemos, os Montenegros, o João Medeiros.. lembram-se???... Perdemos.! 
À noite sabíamos que eles estavam a jantar no Clube dos ricos ... onde só podia entrar quem eles deixassem ( e... tosse engasgado com uma gargalhada)... Nessa altura as ruas eram mais escuras, agora não são muito mais claras que a Eléctrica para poupar dinheiro põe lâmpadas de mortos... À noite, esperámos que eles saissem e fiscámo-los na Travessa do Forno, aquela ali ao pé da Fonte Nova... pusemos arames estendidos de um lado ao outro... eles vinham bem bebidos... Foi vê-los cair e deitar-lhe por cima mijo de cavalo, ou burro para o caso tanto faz...
Riram em coro os três...
Pois foi, pois foi... pois até o Hilário da Havaneza e o Eugénio do Vale foram chamados ao Posto da Guarda, ainda ele era ali na Avenida da Estação... Mas foram rijos, nunca quebraram e eles nunca souberam quem fez aquilo aos '' mijados'' ... era assim que a gente lhes passou a chamar.
...
Sorrindo, admirei o ar de crianças marotas que lhes vi no rosto... 
De repente, e distraída que estava,  assustei-me com uma coisa peluda a roçar-me as pernas... era o gato Fanecas. Tinha vindo de saias e assustei-me com o cumprimento do meu amigo de quatro patas.. .. Até o dono do café, habitualmente tão sisudo, se riu do meu susto... nessa altura aproveitou para me mostrar um livro dizendo-me que tinha sido um amigo, o Carlos, que tinha pedido para me entregar...
   Já mais repousada, aliviada do trabalho do dia com a conversa dos velhotes.... rumei a casa... mas antes, olhei o sol que  ia adormecer lá para os lados de Lisboa e pedi-lhe para levar um raiozinho de sol ao meu amigo lindo que mora pertinho do Monte da Lua
....
Caminhando pela rua vou pensando...
Não posso ir ao café... hoje não!
Tenho mil e um afazeres... pequenas coisas que ficaram esquecidas ao longo do dia de trabalho : na cozinha esperam-me umas favas serôdias para descascar... roupa ressequida adormecida pelo sol da tarde... um jantar a ser pensado... Depois... rever os procedimentos para as provas de aferição... mais a acção ao final da tarde... e ainda encaixar ir ao velório do pai de uma colega....
Hoje não posso ir ao café....
Continuo caminhando, a pasta dos livros pesa-me, as calças picam as pernas por causa do calor... os óculos escorregam do nariz por causa do suor...
 Pronto! Está decidido hoje não vou ao café!
Meio  adormecida caminho, quase não ouvia o chamamento : '' senhora, óh senhora... '' . Ah, é comigo: É o Xico das Cabras... atravessa a rua vem direito a mim de mão estendida para o cumprimento.
Páro, ponho a pasta no chão e cumprimento-o com um afago no ombro: '' então Xico como vai a saúde? '' Mal, muito mal... o doutor diz que me vai cortar as pernas... '' As pernas??? .... Sim. !!! '' Porquê as pernas? '' Para eu não correr atrás do bode. Só quer fazer mal às cabritinhas... Bode velho....
Sorri... sorri com gosto.
O Xico tem 50 e tal anos, deficiência mental e trabalha  como pastor.  Tem um alto enorme na cabeça que se vê quando tira a boina para nos cumprimentar mas, invarialvelmente, queixa-se de outros males. Uns reais, outros ( a maioria) imaginários...
Continuei... ''´´Óh Xico, logo as duas pernas??? '' Pois é. Depois já não posso casar....Sabe que uma rapariga do Catujal gosta de mim? Gosta pois...!
... Lá continuei a consolar o Xico...

Hoje não vou ao café.
Mas amanhã quero ir... acho que se está a organizar uma tertúlia para discutir a energia nuclear... não quero perder....