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Mulher... mãe.... avó Dona de 15 cães, 6 gatos e muitos sonhos! No momento vive alguns dilemas, mesmo encruzilhada, perguntando-se que caminho percorreu até aqui, que raio de futuro construiu, que se vê agora sozinha, sem trocar ideias com ninguém, escutando os noticiários na ânsia de ficar informada e assim se ligar com o real que parece acontecer somente fora de si

sábado, 2 de abril de 2011

Sentei-me na minha mesa, bem no cantinho do café .
Esta posse é feita tanto do hábito, como do prazer de olhar discretamente os frequentadores do Café República...
Peço um café e uma água. Com o olhar procuro os jornais, estão em cima do balcão, vou buscá-los para os ler em diagonal.
 No regresso à minha mesa sou interpelada com um ''boa tarde'' do Zé Barulho.  Assim que lhe respondo e cruzamos olhares percebo que me quer falar mais qualquer coisa... Então já sabe da negociata da Central?.. Não, acho que não sei nada, ou antes sei pouco... Pois é andam aí a falar que se os de Sines e os lá do norte não querem a Central, poderiam mandá-la fazer aqui para as nossas bandas na Pampilhosa... 
A sério?- respondi meio incrédula... Pois é, mas eles não sabem com quem se vêm meter. Não queremos cá tal bicho. Somos serranos, professora. Já uma vez corremos com os franceses. Demos-lhe tareia de criar bicho ali para os lados de Foz de Arouce. Se for preciso também arreamos nesses senhores de Lisboa. Ando cá a pensar que esse homem com nome de franciú, cheio da nota, deve pensar que somos parvos... Agora até vamos ter as ventoinhas de vento, luz é o que não vai faltar. E, ainda temos as centrais de Candeias e da Ermida no Senhor do Monte.... Precisamos de empregos, isso é verdade, mas se construíssem cá tal coisa não era o povo da terra que ia para lá trabalhar, havia de ser gentinha de fora .. Mas, digo-lhe mais professora, não a queremos aqui, nem em lugar nenhum do país... já nos chegam as espanholas. Sim, que se um dia aquilo rebentar como aconteceu lá na Rússia, os tais raios, ou ventos, ou nuvens ou lá o que é do nuclear, não vão saber onde é a fronteira... pois não é verdade que todos os Invernos nos chega a guieira, o vento gelado, lá de Espanha??? ... mas  não a empato... vá lá beber o seu café.. que a si já vi que não preciso da convencer...
-  Mas olhe senhor Barulho... temos mesmo de ir falando com toda a gente... Como sabe aquela promessa do emprego pode fazer as pessoas vacilarem, pensarem duas vezes... e, não perceberem que é mentira... que é falso... Como muito bem disse, os empregos se existirem é sempre para gentinha de fora...
Voltei à minha mesa...  com um sorriso espelhado na alma.... tenho de convencer o Cerqueira, um amigo meu, que percebe de electricidade para vir fazer um debate, ou talvez uma tertúlia aqui mesmo no café...
De tão entretida que estava com o Zé Barulho, nem tinha reparado que o Estivas tinha entrado...
O Estivas é uma figura de gente... isto é, deixa explicar. Tem com certeza sessenta e tal anos, cabelos grisalhos, barba de dois dias, veste quase sempre calças de ganga e camisa de xadrez, jeito que com toda a certeza lhe ficou dos anos que trabalhou no porto de Lisboa, na estiva. Quando o olho acho sempre que vejo o brilho das águas do Tejo, o som das sirenes dos cacilheiros em dias de nevoeiro, as madrugadas do café da Ribeira.......
.....como dizia no outro dia a Bina, ... '' óh sôtora aquele Estivas é um pedaço de mau caminho''' '' Ai ele levava-me, ai levava-me à certa... Ai meu Deus se o meu homem ouvisse isto tinhamos o caldo entornado'' '' Mas, eu sei que a senhora entende... São jeitos de nós dizermos que por sermos casadas não estamos nem ceguinhas nem mortas...'' '' quando tinha 18 anos eu só pensava naquilo, sabe?! Em estar com o meu namorado... Eu bem fugia, bem dava negas, mas olhe que aquele calorzinho a subir-me pelo corpo... ai era coisa boa...''

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