Era uma vez uma estação de caminhos de ferro. Branca, com azulejos azuis colocados nas paredes, neles via cenas de ceifeiras, de homens com grandes chapéus a debulharem o trigo, pastores a guardarem varas de porcos sentados à sombra de sobreiros, gentes, costumes e paisagens do meu Alentejo, mas que na altura eu não sabia que era meu.
Era de manhã, muito cedinho, uma neblina encobria os campos... eu saltitava entre malas castanhas com fechos pretos de latão meio enferrujados, na gare também havia cesto e de alguns saiam piares de galináceos presos... fazia frio e a minha avó recomendava-me em voz firme para eu abotoar o casaquinho de malha branca que a minha mãe me tinha enviado de Lisboa havia algum tempo.... Esperava ansiosa a chegada da automotora que vinha de Estremoz e nos levaria até Portalegre, onde apanharíamos o comboio que vinha de Castelo Branco e depois rumaria a Lisboa...
... a automotora nunca mais chegava... e eu vibrava de alegria de poder ir ver a minha mãe.... o meu pai... a minha irmã... Nesses tempos vivia em Cabeço de Vide com os meus avós, os meus pais não tinham condições para me ter com eles. A viagem de ida era sempre uma festa, uma alegria... O regresso, esse era mergulhado em lágrimas, com a minha avó a ralhar e lamentar '' até parece que te tratamos mal. Esta gaiata é mal agradecida... e terminava ...gaiatos...''
Nesse dia na estação havia outra menina, ao contrário de mim vivia com os pais em Lisboa e tinha vindo visitar os avós... tinha na mão uma caixa preta... a minha alegria era tanta que me aproximei dela... Já não sei o que dissemos. Só me lembro que abriu a caixinha preta, e lá de dentro surgiu uma pequena bailarina a dançar e uma música suave e linda.... Fiquei fascinada... pedi-lhe para segurar... fechei e abri suavemente a caixinha para ver adormecer a bailarina....
Durou pouco o encanto. Ela e os pais foram noutra carruagem, eu e os meus avós fomos perto da entrada por causa dos tais cestos com galinhas e de outros que levavam queijos, chouriços, mel, nozes... mimos alentejanos para os meus pais matarem saudades da terra...
.... não me lembro de mais....
Mas esta memória perdurou e ainda hoje ao colocar a tocar as caixinhas de música lembro aquela manhã fria, nevoenta e mágica.
Mas esta memória perdurou e ainda hoje ao colocar a tocar as caixinhas de música lembro aquela manhã fria, nevoenta e mágica.


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